Viajar sozinho. Porque não?

Muita gente fica aterrorizada com a hipótese de viajar sozinho. Outras encaram o acto de viajar como um acto estritamente colectivo. No entanto viajar sem companhia também pode ser uma experiência extraordinária.

Planear as férias torna-se bem mais simples. Não há que coordenar agendas com ninguém. Podemos decidir de um momento para o outro, podemos alterar o ritmo e o percurso sempre que queiramos.

Quando viajamos a sós as regras são feitas apenas por nós próprios e não temos que procurar consensos. Faz-se o que se quer, quando se quer.

Viajar desta forma é também uma excelente ocasião para nos conhecermos melhor. Dispomos de tempo para reflectir, alterar prioridades, definir novas metas e constitui uma excelente oportunidade para nos testarmos.

Por outro lado, é o momento para sairmos da nossa zona de conforto e ganhar coragem e confiança para fazermos aquilo que receamos ou nos assusta, o que nos pode transformar a vida pessoal e profissional.

A economia de recursos pode ser também um factor determinante. Quando viajamos acompanhados, muitas vezes temos que seguir os nossos parceiros em opções que não assumiríamos se viajássemos sós.

Dificilmente existem melhores ocasiões para travar novos conhecimentos que as viagens a sós. Procuramos respostas junto dos outros, seja para conhecer mais das gentes e dos locais onde nos encontramos seja para aprender e partilhar experiências com outros viajantes. Tornamo-nos mais tolerantes, acessíveis e comunicativos.

Quando viajamos nestas condições temos a oportunidade de nos apercebermos de detalhes que normalmente não nos aperceberíamos se estivéssemos acompanhados. Mais facilmente se utiliza o transporte público, metro, autocarro ou outro, o que nos faz sentir menos isolados e nos dá a oportunidade de perceber determinadas rotinas e hábitos da vida local.

Assim, será possível perceber que os italianos usam os perfumes de forma abundante, que os Australianos gostam de andar descalços e que por vezes o fazem em lugares públicos ou que os asiáticos gostam de estar acocorados, seja para comer, ler o jornal ou simplesmente para descansar. Será mais fácil observar que os japoneses levam o almoço para o trabalho em objectos de plástico, que alguns casais chineses usam roupas iguais, ou que no Uruguai por toda a parte se vê as pessoas com a cuia e a bomba na mão e uma garrafa térmica debaixo do braço porque não dispensam o mate, a bebida nacional.

Algumas das minhas viagens memoráveis foram feitas sem qualquer companhia. Umas vezes aproveitava as viagens de trabalho e fazia uma extensão para o gozo de umas semanas de férias, outras vezes os destinos e os planos das viagens que desenhava não se configuravam com o conforto e a coragem dos possíveis acompanhantes.

Algum espírito aventureiro e uma inusitada forma de viajar, proporcionaram-me circunstâncias inesquecíveis, a sós.

Viajar sozinho? Nem sempre, nem nunca!

Manuel Pereira de Melo