Turista? Eu não!

Uma amizade com um taxista proporcionou-me um emocionante almoço em casa de um residente numa das mais perigosas favelas do Rio de Janeiro. Amenas cavaqueiras com alguns locais permitiram-me uma agitada visita nocturna pelos famosos bares dos mal-afamados bairros de Caracas, a cidade com mais homicídios na América do Sul. Uma dança bafejou-me com a plena vivência de um Carnaval em Colónia e uma outra com um fim-de-semana numa vinha nos arredores de Viena. Uma boa amizade viabilizou uma intensa e dramática ingressão pelo famigerado Soweto na África do Sul durante os graves conflitos entre as tribos Zulu e Xhosa. Também providenciou um calmo e agradável Barbecue Party nos arredores de Joanesburgo. Uma noite ao som de uma bateria de samba entre danças e chopinhos num bairro de São Salvador da Baía onde nenhum turista se atreve a espreitar só foi possível pela interacção criada com os residentes. Assistir a um concerto clandestino nos subúrbios de Havana e posterior fuga de uma carga da polícia de estado só foi possível pela amizade de uns hermanos. Estes são alguns exemplos de situações por mim vivenciadas, só possíveis pela interacção que estabeleci com as gentes locais. Voltarei a cada uma destas e outras experiências com mais detalhe noutras ocasiões.

Alguém que se dedica a estudar os hábitos de viagens observou que se registam grandes alterações nos hábitos de viajar. Antes eram os viajantes mais conservadores que tinham por costume recorrer a excursões enquanto os viajantes com orçamento limitado improvisavam mais. Segundo o estudo, actualmente acontece o oposto. Muitos dos viajantes com orçamento limitado procuram agora pacotes turísticos, enquanto os mais abonados tentam encontrar experiências diferentes, mais “autênticas”, com um maior contacto com as culturas e realidades locais.

Nem sempre este tipo de experiências é fácil de alcançar. O que será necessário fazer para conseguir?

Actualmente existem inúmeras possibilidades de viajar fugindo dos parâmetros turísticos normais, mesmo para bolsas com orçamento reduzido.

Muitas vezes os chamados “viajantes independentes”, não obstante a dimensão e exotismo da viagem acabam rodeados de pessoas do seu país. Umas vezes pela dificuldade em descobrir os hábitos locais, outras vezes porque não se esforçam muito para tal. Acontece que actualmente existem já operadores preparados para oferecer essas experiências. Em resposta à crescente procura por passeios “insider” bem diferentes das marchas forçadas no meio de uma multidão de pessoas do mesmo país, surgiram serviços de guia turístico, que disponibilizam uma variedade de experiências, das mais íntimas e exclusivas às mais excêntricas e inesperadas.

Aventuras com grandes doses de adrenalina em penhascos, circuitos de surf ou caminhadas por vulcões e banhos em cascatas, passeios a pé, em corrida ou de bicicleta em algumas das principais cidades europeias, uma turnê no Red Light District de Amesterdão guiado por um ex-oficial de polícia, aulas de Samba ou de Tango, cozinhar uma refeição com um chef Michelin em Nova York, treino de circo ou preparação de um prato indiano em casa de uma família em Deli, são exemplos de actividades possíveis.

Nas cidades maiores, onde está disponível um grande número de guias, é possível definir o espírito do passeio. Reservar um passeio com especial incidência na história medieval de uma determinada cidade que possua essas características ou uma visita a espaços que apresentem mostras de determinada forma de arte estão hoje acessíveis.

Em alguns dos sites consegue inclusivamente ter informação detalhada sobre a forma como se processa determinado tour e sobre as características do guia, por exemplo se é conduzido com humor, se é necessária preparação física, etc. Aqui ficam algumas referências dignas de boa nota, ToursByLocals.com, Vayable.com e Tripzaar.com.

Alguns sites de férias oferecem a oportunidade de hospedagem em casa de locais para quem pretende fugir de hotéis cheios de turistas ou para quem tem a bolsa limitada. Existe também a oferta de casas de férias particulares, mas quase sempre em zonas muito turísticas. VRBO, Flipkey, HomeAway são alguns exemplos destes sites.

O couchsurfing constitui uma nova abordagem que contém alguns riscos em termos de qualidade e por vezes de segurança, mas que possibilita a imersão total na vivência local já que a hospedagem é feita em casa de habitantes locais que partilham o seu espaço. CouchSurfing.com é o site líder e o que deu origem a este movimento. Alguns sites permitem que os usuários comuniquem entre si facilitando assim a partilha de experiências, o conhecimento de novas pessoas ou encontrar parceiros para caminhadas e outras actividades. Em The Art of Couchsurfing ou Airbnb fica-se a saber muito mais sobre couchsurfing, nomeadamente sobre como começar com o couchsurfing, informações de segurança, como encontrar lugares para estadia e por vezes até dão indicações sobre como comportar nestas situações.

Independentemente do tipo de estadia por que optou, a melhor forma de conviver com a cultura local é procurar interagir com os habitantes. De acordo com o que pretende conhecer procure, com as devidas precauções, onde e como estabelecer um primeiro contacto que o leve a integrar-se, mostrando e compartilhando um pouco de si próprio.  Seguramente terá uma experiência mais enriquecedora.

Manuel Pereira de Melo